Drake concede entrevista ao The Hollywood Reporter

Em seu apartamento no 52° andar com uma vista incrível da CN Tower em Toronto, Drake concedeu uma entrevista a revista The Hollywood Reporter.

“Essa entrevista é meio cedo para mim” ele admite, mesmo já sendo quase 14:00. Na noite anterior, ele começou a trabalhar com algumas idéias musicais — um instrumental, um beat, um arranjo — logo após meia noite, e não parou até ás 10:00. “Minhas rodas começam a andar mais rápido do que da maioria das pessoas nesse horário” disse o rapper que fez 31 anos recentemente. “É melhor para mim encontrar um ambiente mais calmo. Eu não gosto de várias pessoas ao redor quando se tem uma tarefa em mãos.”

Drake estava ansioso para contar sobre sua ambição por filmes e TV, que inclui trabalhar com a Netflix para reviver “Top Boy”, uma curta série de crime mas aclamada pela crítica. Drake e Future The Prince junto da SpringHill Entertainment, companhia de LeBron James, farão a produção executiva da série que começará a ser produzida próximo ano para estrear em 2019. A dupla também está na produção do documentário “Carter Effect”, que talvez irá chegar na Netflix também. Mas o maior indicador do empurrão de Drake para Hollywood é sua próxima parceria: Steve Golin, fundador da Anonymous Content (uma das maiores produtoras de Hollywood, responsável pelo filme “Spotlight” e a série “Mr. Robot”), para uma série de TV ainda não intitulada, e talvez, mais significativamente a Apple que deu a ele permissão para produzir o que ele quiser — pelo menos, de acordo com Jimmy Iovine — assim que ele estiver preparado.

Se alguns detalhes parecerem vagos, vale lembrar que tudo que o Drake toca torna-se manchete ou um meme de internet, com muitas marcas registradas. Uma vez, ele popularizou o termo “YOLO”, a abreviação de “You Only Live Once” (“Você só vive uma vez” em português), em “The Motto”, faixa bônus do seu álbum Take Care de 2011. O termo acabou em roupas e mercadorias não autorizadas e tornou-se uma dor de cabeça. É por isso que ele e Future nem divulgaram o nome de sua nova companhia ainda. 

Mas tem algo que Drake estava imensamente ansioso para falar sobre: Harry Potter.

Pelos últimos 4 anos, ele tem seguido uma primeira edição de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, e finalmente está no mercado por 160 mil dólares. “Sim, eu li todos,” ele diz sobre a série de livros da J.K Rowling, dois pequenos diamantes brilhando em seu dente da frente enquanto ele sorri abertamente. O entrevistador diz a ele que está lendo os livros para seus filhos e Drake imediatamente começa a fazer perguntas, como em qual parte do livro ele está. Ao ser perguntado sobre a compra, o rapper diz: “Eu deveria comprar. Meu aniversário está chegando. Talvez eu compre para mim como um presente.” 

E por que não? O que é 160 mil dólares quando se está esgotando shows de Amsterdam até Auckland que lucra mais de 1 milhão de dólares em uma noite? E quando você é um dos 5 rappers mais ricos do mundo, de acordo com a Forbes? De fato, com apenas 31 anos, Drake já é um dos artistas que mais vendem de todos os tempos. Seu álbum lançado mais recentemente, “More Life”, tem o recorde de 90 milhões de streams no primeiro dia. Seu projeto de 2016, “Views”, segurou o número 1 na Billboard 200 por 10 semanas seguidas e obteve mais de 500 milhões de streams.  

Ainda, apesar de todo o sucesso monetário, três Grammys e o credito artístico, Drake possui uma auto-depreciação. As paredes brancas de 4 metros de altura são na maior parte nuas, salvas apenas por uma obra de arte neon que diz: “Menos Drake, Mais Tupac”, do artista Patrick Martinez. “Eu amo essa,” ele diz sobre o quadro que lhe custou 6 mil dólares mas o permite assumir uma certa posse dos haters, e há muitos que pensam que ele não é árduo o suficiente. “Quero dizer, as pessoas tem direito de opinar, mas essa opinião, eu só iria preferir que estivesse aqui do que em qualquer outro lugar.”

Se fosse por Hollywood, essa obra de arte simplesmente iria dizer: “Mais Drake”. “Eles são realmente geniais com o marketing da música,” disse Golin. “As mídias sociais deles, a forma que eles fazem tudo aquilo, é muito interessante para nós. Estou apaixonado pela forma como eles se comunicam e interagem com seus fãs e o público.” Steve Golin também acha a presença da dupla bastante agradável. “Há muitos músicos dessa idade que estão fazendo sucesso e eu não consigo lidar com eles, mas esses caras são muito acessíveis. Drake não se importa quando se trata de reuniões e de estar envolvido; ele quer ser proativo.”

Robert Weinstein, produtor de filmes e a atual cabeça da The Weinstein Company, convidou Drake para estrelar e produzir em um filme chamado The Heist mas Drake recusou a proposta devido a diversas acusações de assédio sexual feitas a Weinstein. “Eu pedi opinião de cinco pessoas e tive um péssimo feedback sobre trabalhar com ele” disse Future.

Visto que ele e Drake são dois dos melhores nos charts, que descobriram como transmitir música com sucesso para uma fã base sem um marketing caro e tradicional, não há escassez em Hollywood para essa dupla.

Uma das fotos do photoshoot de Drake para a The Hollywood Reporter.

“Drake quase que ajudou por conta própria a nos tornamos relevantes culturalmente desde o dia em que lançamos [ano de 2015],” disse Robert Kondrk, que cuida dos conteúdos e mídias do Apple Music. De fato, Drake é talvez um dos parceiros mais valiosos da Apple, com o “Views” o primeiro álbum a atingir 1 bilhão de streams no serviço. Um único episódio da OVO Sound Radio na Beats 1 tornou-se o programa mais ouvido na plataforma. 

Sobre o início de sua carreira em Degrassi, Drake diz: “Obviamente tudo acontece por uma razão. Eu conheci esse garoto, que o pai era um agente. Consegui o audição para Degrassi. E eu comecei a ir para uma escola com compromissos externos (em artes e esportes). Eu conheci várias pessoas de um lado diferente da cidade (mais diversas economicamente). Meus amigos mudaram naquele ponto, e eu comecei a agir e encontrar a mim mesmo.” 

Ele ainda se sente preso em Toronto, ele diz, sempre tenta descartar andar com seguranças. “Eu posso entrar no carro em Toronto, dirigir e fazer as coisas por minha conta própria. Eu conheço as ruas. Conheço todos os lugares. Conheço todo mundo.” Depois do encontro com o entrevistador, Drake ia pegar seis SUVs cheios de amigos para a premiere do documentário “Carter Effect” — o mesmo grupo que ele começou a andar durante aquele momento fundamental da sua vida adolescente. Assim como Toronto, o grupo de homens jovens reflete uma mistura de raças (brancos, negros, asiáticos), todos em seus 30 anos de idade. Eles também viajam com Drake para qualquer lugar que ele vá, seja em sua casa no subúrbio de L.A em Calabasas, ou em uma festa de Formula 1 em Dubai.

Quando Degrassi chegou ao afim, Drake conheceu Future, que estava sendo DJ em diversas festas para todas as idades em Toronto na época. Eles começaram a colaborar, ganhando 750 dólares por show. Em 2006, ele lançou sua primeira mixtape, “Room for Improvement”. E então, o som de Drake atraiu o interesse de Lil Wayne, que o colocou na gravadora Young Money em 2009. Um ano depois, Drake lançou seu primeiro álbum de estúdio, “Thank Me Later”, que estreou em primeiro lugar nos charts da Billboard U.S. Com os anos seguintes, os álbuns e as turnês continuaram a acumular grandes números — e chamou atenção para sua vida. Ele discutiu com todos, do Kendrick Lamar ao Ludacris. Em relacionamentos, ele se envolveu com Jennifer Lopez, Rihanna e mais recentemente com Bria Vinaite, a atriz principal em “The Florida Project”. Drake revelou que vem colecionando bolsas Birkin da Hermés, que será um presente para a mulher com quem ele irá ficar.

Drake para a revista The Hollywood Reporter.

“Tenho certeza de que irei parar [de fazer música] um dia,” disse ele sobre sua carreira musical. “Quando eu começar a sentir que estou inventando. Esperançosamente, eu verei isso antes de acontecer certo? Mas agora parece que apenas começou, então não planejo parar tão cedo. Mas pretendo expandir — tirar 6 meses ou 1 ano para mim mesmo e fazer alguns filmes ótimos. A música está sempre aqui.” 

O fato de que Drake e Future já estão em negociações intensas com a Apple combina bem para os seus planos de conteúdo — sejam eles filme, TV ou digital. Todos os olhos da indústria estão na Apple, com esses bilhões de dólares para gastar em uma programação original e como isso vai atrapalhar Hollywood. Como exatamente Drake e Future se encaixaram no plano da Apple Music permanece sendo um mistério, mas a gigante da tecnologia simplesmente vai apoiar qualquer coisa que eles queiram fazer. Larry Jackson, criador de conteúdo da Apple Music, acha que Drake vai dobrar seu sucesso musical para a tela, seja como produtor ou ator. Ele lembra de filmar o álbum visual de 25 minutos, “Please Forgive Me”, na África do Sul: “Drake estava no set com a gente até as 7:00 toda manhã,” ele diz. “Havia algumas instâncias em Soweto que eram realmente desonestas, e todos nos sentimentos um pouco fora da nossa zona de conforto, na verdade. E ele ficou lá com a gente, todos amontoados perto do aquecedor tentando se manter aquecidos. Esse cara é um dos mais dedicados com quem eu já trabalhei.” 

“Quando nos conhecemos, lembro que Drake guardou uma foto dessa piscina com gruta incrível em sua área de trabalho. Cachoeiras, de tudo. Ele nem sabia onde ficava a casa,” relembra Future. “Ele só continuava dizendo, ‘eu vou ter aquela casa.’ E eu realmente acreditei. Nunca vou esquecer de quando entrei naquela casa com ele em Calabasas [ano de 2012], e ele simplesmente fez um cheque e comprou.” Não era apenas uma casa similar, com uma gruta similar, era a mesma casa, por mais de 7 milhões de dólares. 

Mesmo que ele esteja na área da música pela última década, Drake ainda recebe um script por semana pela a atuação. Os estúdios, conhecendo o talento dele e procurando se encaixar em sua fã base global, ofereceram tudo, opções como reiniciar a franquia de “Barbershop” e até mesmo super heróis. Até agora, ele recusou todos. “Não estamos procurando colocá-lo em algo como Battleship,” diz Future, fazendo referência a Rihanna e seu papel nos telões.

Em vez disso, Drake e Future prefeririam criar filmes e projetos de TV com empresas de maior destaque como a A24, o estúdio por trás do ganhador do Oscar “Moonlight”. Dias antes do “Carter Effect” estrear, Drake compareceu a uma exibição privada de “The Florida Project”, também da A24, e ficou impressionado com o filme dirigido por Sean Baker sobre uma mãe e sua filha de 6 anos vivendo nas sombras da Disney World. “Aquilo foi uma das minhas coisas favoritas que já vi por um bom tempo, apenas porque me mostrou algo sobre um mundo que eu nunca pensava e como era viver por lá. Foi muito puro e humano” ele disse. 

Apesar de que nenhum dos lados divulgaria exatamente no que eles estão colaborando, o chefe de produção Noah Sacco diz que abrange filmes e TV. “Quando nos falamos, eles falaram sobre sua paixão por guiar novas vozes. Nós vemos o que eles conseguiram na indústria musical. E faz muito sentido para a gente.” disse Sacco. “Descobrimos que vimos olho a olho muito rápido.” 

Faz sentido quando você também considera as outras paixões de Drake. Pergunte a ele com quem ele amaria trabalhar, e a resposta é Edward Norton. A série que ele não se cansa? “Ozark” da Netflix. “Meu gosto por TV ou filmes é meio similar ao da música, que no caso, eu gosto quando as pessoas te atingem na cabeça com verdadeiras emoções humanas,” explica Drake. “Então com “Ozark”, é apenas a dinâmica familiar. As discussões. O amor. As brigas. Eu realmente me identifico com o quão é preciso.” 

Há alguns anos atrás, Drake viu a série original “Top Boys” no Youtube e ficou impressionado com a forma que mostrou Londres sendo simultaneamente bonito e malévola. “E aquele elemento humano me atraiu” ele disse. “Eu comecei a observá-los. Tipo, quem são essas pessoas? São esses atores que eu deveria conhecer? Eles são famosos apenas aqui? Eu lembro que falei para Future, ‘esse programa é incrível.’” Mas a série que lançou a carreira do diretor Yann Demande, já teve seu percurso e acabou em 2013. “A paixão de Drake por Top Boy estava clara desde a primeira conversa, e ele realmente dirigiu essa ressurreição,” disse Cindy Holland, que está trabalhando na série junto da Netflix.

Drake é a capa da edição de novembro da revista The Hollywood Reporter.

Margaret Atwood, outra influência notável de Toronto, recentemente fez uma oferta pública a Drake para atuar na 2° temporada de “O conto da Aia”. Future diz que Drake também recusou a proposta, mas fala sobre o interesse em escolher um dos livros de Margaret e transformá-lo em filme.

Ultimamente, Drake está feliz em derrubar qualquer idéia padrão sobre como um rapper bem sucedido deve evoluir. “Ser um jovem negro, eu acho que definitivamente há uma chance de cometer um erro. Mas eu tenho sido bastante inflexível sobre mostrar evolução. Eu tento mostrar isso em diferentes setores, como “Saturday Night Live”, mostrando as pessoas que posso ser engraçado,” ele diz sobre ter apresentado o programa. “Quando eu voltar a atuar, quero fazer coisas que as pessoas pensem ‘uau, eu não esperava por isso’. Tipo, é legal ouvir você dizer, ‘Sabe, eu não esperava que você gostasse dessas coisas,’” ele diz, se referindo a minha surpresa ao saber que ele gosta de Harry Potter.